Estar Certa
- Daniela Santos
- 4 de dez. de 2020
- 3 min de leitura

Desde criança que sou uma pessoa inquisitiva. A minha família que vos diga. O meu pai já sabe que para mim “Vamos jantar às 20h” não é uma resposta válida pois não sei se vamos começar a preparar o jantar às 20h ou se vamos começar a preparar o jantar mais cedo para jantarmos às 20h. Do outro lado, a minha mãe já nem entra nesses jogos e quando eu lhe pergunto o que é o jantar diz-me sempre que não sabe, apesar de ter acabado de pôr o frango, que tinha deixado a descongelar todo o dia, no forno. Enfim. Sou inquisitiva e nem todos tem paciência para lidar com isso.
Contudo, as pessoas da minha família sabem que apesar de ser chata com estas coisas não o faço por mal. Faço-o simplesmente pelo facto de sentir que já tenho tão pouco controlo sobre a minha vida que preciso de saber estas pequenas coisas para me sentir mais tranquila. É do género “Não sei o que vai ser de mim ou do meu futuro, mas hoje sei que vou comer frango às 20:04h”.
No entanto, pessoas que não me conheçam tão bem geralmente assumem que esta minha inquisição constante se deve ao facto de eu não aceitar opiniões de outras pessoas e querer apenas que as minhas prevalecem. Pode parecer que não existe aqui um ponto de ligação, mas existe. Por exemplo, se alguém num grupo de trabalho meu der uma ideia não podemos todos atirar confetes e pronto assunto arrumado. É preciso perceber realmente se é uma boa ideia ou não. Mas agora vocês diriam, “Mas Daniela antes das pessoas falarem e darem ideias elas pensam primeiro” e eu respondo “Quem me dera meus caros”.
Por isso uma vez que este processo de autofiltração das ideias nem sempre existe é necessário que alguém o faça. E, a grande maioria das vezes, calha-me a mim fazer este papel de advogada do diabo tentando perceber se conseguimos mesmo mesmo fazer alguma coisa com aquela ideia ou se é apenas uma coisa “gira”.
O ponto que pretendo passar com este texto é simplesmente que eu não quero estar certa e ser a dona da razão, quero apenas perceber. Obviamente que se pudesse estar sempre certa era bom, mas estar sempre certa implicaria que já sabia tudo, e se já sabia tudo então não teria piada nenhuma andar por aqui. No entanto muitas pessoas não percebem isto e acabam a assumir que eu não gosto delas porque não gosto de uma ideia que deram. É verdade que às vezes não gosto, mas na maioria das vezes, nada tem haver com a ideia.
No início, assim que as pessoas davam as suas ideias, eu colocava as minhas questões o que era considerado demasiado bruto porque não tinha referido anteriormente que gostava da ideia. Atualmente, para me tentar preservar socialmente, procuro sempre em dar imenso feedback positivo antes de começar a fazer perguntas. Mas sabem uma coisa? Não resulta na mesma. Por mais cuidado que eu tenha a fazer perguntas alguém acaba a sair magoado.
Nem sempre é fácil lidar com pessoas que questionam as nossas ideias. Mas torna-se especialmente mais difícil, quando levamos as coisas para um ponto de vista pessoal e assumimos que aquela pessoa está a tentar derrubar a nossa ideia porque não gosta de nós ou que estas perguntas não são perguntas, mas sim críticas altamente destrutivas. Se me fizerem críticas destrutivas também foi ficar magoada, mas caso não o tenham feito e essa for apenas a minha opinião, não posso colocar a culpa na outra pessoa se eu é que interpretei mal a pergunta que ela me fez com sendo uma critica.
Enfim. Neste momento, quem sabe quem está a ler este texto. Pode-se identificar comigo como sendo uma pessoa que apenas quer fazer um bom trabalho, ou pode-se identificar como sendo uma vítima destas minhas perguntas. Quero só deixar aqui escrito que não Maria, não tenho nada contra ti. Só não gosto da tua ideia. Por favor não leves isto como algo pessoal. Este texto não foi para ti. Mas como sei que és alguém sensível vais interpretar como sendo. Mas não é. Beijinhos e vemo-nos na aula para mais uma sessão de debate de ideias.

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