Os dois lados do Autocarro
- Daniela Santos
- 23 de fev. de 2021
- 2 min de leitura

Adoro viagens longas. Poder ficar a olhar pela janela para o mundo e vê-lo passar. Tudo isto enquanto ouço a minha música e sou embalado pelos movimentos que o carro vai fazendo. Normalmente a parte que as pessoas menos gostam das viagens são as viagens elas próprias. Ter de passar horas fechado dentro de um carro a conduzir. Mas eu gosto.
Este meu gosto não se resume apenas a andar de carro. Também o sinto, por exemplo, quando ando de autocarro durante grandes períodos de tempo. Apesar de viver em Lisboa, vivo numa zona, mal localizada em termos de acessos, por isso este percurso diário de andar de autocarro é algo que me é bastante familiar e consoante as viagens, duração e lugares vazios para sentar, bastante prazeroso.
Por isso, saio de casa apanho o autocarro e vejo o mundo através da minha janela. Volto a casa de novo no autocarro e torno a ver o mundo através da minha janela. Um mundo que já é diferente desta segunda vez. Porque estou a ver o outro lado da rua.
No outro dia quando estava no autocarro, pensei que as viagens neste deviam ser o mesmo que as viagens que fazemos pela vida. Com as pessoas de quem gostamos e onde devemos ver os dois lados. O meu lado e o lado do outro. É muito fácil ficar fechado dentro do autocarro no telemóvel ou a pensar quanto mais tempo é que este vai demorar a chegar. Mas o importante para mim é apreciar a beleza dos dois lados do autocarro.
De manhã, quando apanho o primeiro vejo parques grandes ainda com poucas pessoas. Cães gordos deitados às portas das casas porque não podem ir para dentro. Crianças e mães a caminhar apressadas para a escola. Quando regresso vejo carros acelerados pelas estradas. Vejo pessoas paradas a conversar nos bancos da rua.
E percebo que existe uma beleza de ambos os lados.
Tal como nas nossas vidas, é fácil deixarmo-nos levar pela nossa realidade e pela nossa verdade sem nos preocuparmos com a verdade ou realidade do outro. A vida é bonita dos dois lados do autocarro e deve ser apreciada tal e qual como ela é.
PS: Obviamente que isto é um pensamento pré-covid. Agora é ficar em casa e ver o mundo pela janela do meu quarto

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